Emergências ameríndias em filmes, debates, projetos e homenagem na temática Educação da 12ª CineOP

Entre os três eixos curatoriais da 12a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, a Temática Educação levará este ano à cidade histórica mineira, entre os dias 21 e 26 de junho, urgentes e oportunas discussões sobre a questão indígena no Brasil. Em meio a conflitos cada vez mais violentos e diariamente noticiados pela mídia, os indígenas seguem batalhando por sua sobrevivência em meio a nebulosos interesses do agronegócio. Sob o título de “Emergências Ameríndias”, a Temática Educação nesta edição da CineOP leva ao debate a importância do audiovisual no processo de reconhecimento da causa em décadas recentes.

 “Falamos de emergências porque seu conceito indica, entre as acepções, ação e efeito de emergir, sucesso, acidente que sobrevém, situação de perigo ou desastre que requer uma ação imediata. Etimologicamente, a palavra deriva do latim ‘emergere’ e significa ‘trazer à luz’, subir à superfície”, explica Adriana Fresquet, que fez a curadoria da Temática Educação com assistência de Isaac Papino. “Tradicionalmente se diz que o cinema e a educação ‘dão voz’ aos que não são ouvidos na sociedade, mas acreditamos que ninguém dá voz a ninguém: indígenas, homens de campo, crianças, mulheres e outras minorias possuem suas próprias vozes. Apenas faz falta trazê-las à luz, permitir que subam à superfície”.

 A ideia pelo tema surgiu logo depois da exibição de Martírio, de Vincent Carelli, em praça pública, durante a Mostra de Cinema de Tiradentes realizada em janeiro deste ano. “O filme torna visível outra história do Brasil, uma história desconhecida, atual e urgente”, comenta Fresquet. A escolha “Emergências Ameríndias” significou um duplo movimento: o posicionamento lado a lado com as populações que vêm sendo exterminadas pelo Estado brasileiro e pelo agronegócio e, ao mesmo tempo, a possibilidade de se conectar a uma produção subjetiva, com modos distintos de ver, ouvir e falar sobre o mundo. “Gostaríamos de nos aproximar de toda a cosmologia que cerca a produção recente de diversas etnias indígenas, buscando perceber como essa forma de convívio entre nossos pensamentos ocidentais e ameríndios podem nos recolocar em relação a um mundo atravessado por diversos sintomas”, diz a curadora. “Pretendemos que esta edição da CineOP possa se tornar um espaço fecundo para a reflexão e produção em torno desta que é talvez umas das nossas questões mais emergentes no Brasil há mais de 500 anos”.

 A educação audiovisual ganha corpo nesta luta proposta pela Temática Educação na medida em que o ato de filmar pode ser entendido como gesto de construção criativa do mundo que se deseja habitar. Para ilustrar essa força, durante a CineOP, os encontros entre os participantes vão incluir a apresentação de diversos trabalhos realizados em vários estados brasileiros por membros da comunidade indígena e professores engajados em tirar a questão de sua invisibilidade. Os processos de formação audiovisual desenvolvidos em oficinas país afora e outras práticas pedagógicas constituem a possibilidade de imprimir a autoria necessária para filmar e compartilhar imagens. “Existe em andamento um processo de formação permanente pelas imagens que transitam de uma comunidade a outra. Muitos participantes estão inspirados por iniciativas similares em outros países latino-americanos, como Cuba, Bolívia e México”, completa a curadora.

HOMENAGEM | PROJETO VÍDEO NAS ALDEIAS

 Neste contexto, a homenagem deste ano na Temática Educação vai para os 30 anos do Vídeo nas Aldeias, completados em 2016. O tributo acontece na cerimônia de abertura do evento, na noite de 22 de junho no Cine Vila Rica, e se espalha por toda a programação ao longo da semana. Esta edição da CineOP pretende ter como ponto de partida o impacto de Martírio – segundo longa-metragem de uma trilogia de Vincent Carelli iniciada por Corumbiara (2009) e a ser concluída por Adeus, Capitão – para propor como a emergência de suas imagens exige a reflexão sobre o papel do audiovisual na transmissão e preservação de culturas ligadas sobretudo à tradição oral. “Se são imagens de resistência, que mostram parte dos invisíveis de nossa história, são também, e por conta disso, imagens em risco”, aponta Adriana Fresquet. Ela acredita que Carelli não fez um filme sobre os Guarani-Kaiowa, mas junto com eles, como resultado das três décadas de pesquisa indigenista levadas a fundo pelo francês radicado no Brasil.

 Celebrar a experiência do Vídeo nas Aldeias convida a investigar a história de imagens e sons produzidos sobre os diferentes povos indígenas e a questionar sobre seu lugar em nosso patrimônio. Criado em 1986, o Vídeo nas Aldeias foi precursor na produção audiovisual indígena no Brasil. O objetivo sempre foi apoiar as lutas dos povos para fortalecer suas identidades e patrimônios territoriais e culturais através da expressão audiovisual. Fundado pelo indigenista, antropólogo e documentarista Vincent Carelli, o projeto surgiu dentro das atividades da ONG Centro de Trabalho Indigenista, junto aos índios Nambiquara, e depois foi expandida para outras tribos.

 As ações incluem distribuição de equipamentos de exibição e câmeras de vídeo para as comunidades e a criação de uma rede de distribuição dos vídeos produzidos. O Vídeo nas Aldeias atualmente está inserido no Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, já produziu mais de 70 filmes, muitos deles exibidos e premiados em diversos festivais e prepara um seriado de TV, com objetivo de levar para mais famílias brasileiras a experiência da vida nas aldeias em um formato de amplo acesso e interesse. O projeto vêm se multiplicando em centenas de outras aldeias, permitindo que povos indígenas iniciem trocas culturais mediadas pelas imagens e suas representações.

 ENCONTRO DA EDUCAÇÃO:  IX FORUM DA REDE KINO

 Integra a programação da 12ª CineOP, a realização do Encontro da Educação: IX Fórum da Educação que reúne diversas atividades em diálogo com a temática “Emergências Ameríndias” com o propósito de oferecer um espaço fecundo para a promoção de um debate sobre a criação de condições para a emergência de uma outra produção audiovisual e suas relações com o universo da educação, com especial foco na questão indígena.

 O público poderá participar de debates e discussões temáticas, das apresentações de 15 Projetos Audiovisuais Educativos, exibição de 23 filmes da Mostra Educação que foram selecionados pelo comitê executivo da Rede Kino - Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual que é formada por um grupo de professores, pesquisadores, produtores, estudantes e representantes de organizações do campo do cinema e do audiovisual. Desde 2009 vem promovendo um Fórum anual para debate e reflexão sobre o audiovisual e a educação, sendo acolhido em 2010 pela Mostra de Cinema de Ouro Preto. O Fórum busca um diálogo com as demais ações da Mostra e tem como foco a criação de um espaço de discussão que relacione o cinema e a educação, a partir da apresentação de propostas práticas e problemas teóricos. As discussões anualmente realizadas no âmbito do Fórum tem refletido na criação de políticas públicas, pesquisas acadêmicas, publicações, projetos e filmes que impactam diretamente os espaços formais e não-formais de ensino no país. 

 Os interessados em participar e receber certificado do Encontro da Educação deverão se inscrever no período de 2 a 14 de junho, pelo site. As inscrições são gratuitas. Vagas limitadas.