Histórica

QUEM CONTA A HISTÓRIA? OLHARES E IDENTIDADES NO CINEMA BRASILEIRO

Quais são as histórias do cinema brasileiro? Quem conta a História e quem cria as narrativas? Quem são os portadores do discurso? Quais são os conflitos entre representação e representatividade?

A temática histórica da 12ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, “Quem conta a História?”, é uma indagação que movimentou muita discussão no cinema brasileiro, que historicamente dedicou boa parte dos seus esforços na representação e relação com grupos, classes e culturas historicamente marginalizados e estigmatizados. Muitos filmes sobre as classes populares e oprimidas, sobre a condição das mulheres, sobre os povos indígenas e negros se tornaram clássicos de referência na historiografia brasileira. Se dizia (e ainda se diz) que se filmava “o outro”. Ora, o “outro” de quem? Quem elege o outro? Se há um “outro” há um “eu”. Tradicionalmente esse “eu” são cineastas homens, intelectuais, de classes mais estabelecidas, diferente daqueles que eles filmavam. São esses que detinham o discurso sobre a realidade e as narrativas sobre a História.

Apesar de não serem atuais, essas questões tomaram uma dimensão significativa no debate contemporâneo, em que gênero, etnia e classe social tomaram o protagonismo nas discussões estéticas e políticas no cinema brasileiro. Essa discussão desvelou as relações de opressão sutis ou flagrantes no País, e a partir disso, se cobra dos realizadores, críticos e historiadores uma postura e uma análise atenta aos constrangimentos históricos brasileiros. É preciso apontar esses problemas, porém não se pode perder de vista a intrincada teia de contradições. Por exemplo: Major Thomaz Reis que fez os filmes da expedição Rondon foi um mero agente oficial que explorou a imagem dos índios ideologicamente ou foi cineasta pioneiro que realizou imagens inéditas de grande força expressiva e impacto cultural? Ou seria ele as duas coisas? E a imagem das mulheres no cinema brasileiro? Como os cineastas a conceberam? Qual seria a legitimidade dos documentaristas no registro e na interlocução com as classes populares? Quais os impasses em ser filmar “o outro”? O chamado “lugar de fala” – de indígenas, negros e mulheres - é algo determinante na legitimidade dos filmes ou não?  Como essa realidade e essas discussões não são novas, é importante pensar o percurso dessas ideias críticas, sua necessidade, sua complexidade e seus limites. A perspectiva histórica pode ajudar a entender esses questionamentos e torná-los um pouco mais complexos em seus flagrantes paradoxos.

No livro Cineastas e a Imagem do Povo, Jean-Claude Bernardet, aponta os conflitos ideológicos e estéticos dos realizadores do cinema brasileiro moderno ao filmarem este “outro”, que é o povo pobre e marginalizado. Uma pergunta que atravessa esse livro e tantos outros estudos sobre cinema brasileiro de documentário e ficção é “de quem é o discurso sobre a realidade?”. Ai completamos, de quem é a narrativa sobre a História? Como grupos historicamente fragilizados disputaram o imaginário sobre suas próprias culturas e realidade?

O fato é que nas últimas quatro décadas representantes (ainda muito poucos) desses grupos historicamente marginalizados passaram para trás das câmeras para contar, eles mesmos as histórias que lhes interessavam, sejam aquelas que refletiam suas condições sociais e históricas, sejam outras histórias, sem caráter militante, identitário ou crítico.

Buscar filmes e cineastas de exceção é sempre um trabalho difícil, pois parte dos filmes pioneiros nesses campos está perdida definitivamente, e o que temos são relatos e documentos, como por exemplo, os filmes das pioneiras Cléo de Verberena e Carmen Santos, dos quais não temos cópias existentes ou disponíveis. É a situação limite do cinema brasileiro.

Nesta edição, a CineOP propõe uma reflexão e exibição de filmes e cineastas importantes que romperam o bloqueio do tipo de produção hegemônica das suas épocas, como também procura fazer o resgate de produções pioneiras que constituem memória fundamental sobre a paisagem humana, cultural e social do Brasil, na sua força e nas suas contradições profundas.

A História do cinema brasileiro foi construída por pensadores e cineastas que refletiram as contradições da construção de uma imagem de nação a partir de perspectivas históricas que buscavam definir a diversidade cultural e apontar os constrangimentos históricos (de etnia, cultura e classe, e mais recentemente, de gênero) do Brasil. O cânone do cinema brasileiro moderno que teve no cinema novo e o crítico Paulo Emílio Sales Gomes alguns de seus exemplos mais emblemáticos, procurou construir não só uma imagem da nação e sugerir uma intervenção política na realidade, mas também colocar em questão a imagem e a alteridade do povo.

A temática histórica aborda os olhares e as identidades construídas no cinema brasileiro, um cinema que, como outras cinematografias, teve grupos fragilizados historicamente como as mulheres, os indígenas e os afrodescendentes representados quase majoritariamente por homens brancos. Como o tema é complexo, a proposta é examinar com perspectiva histórica, essas questões na nossa cinematografia por meio de filmes e debates que iluminem as afirmações, contradições e paradoxos dessa temática.

Francis Vogner dos Reis – curador
Lila Foster – curadora assistente


Francis Vogner dos Reis
Foto: Leo Lara/Universo Produção