Educação

EMERGÊNCIAS AMERÍNDIAS

Emergência (s. f.) – ocorrência, conjuntura; acidente que sobrevém, situação de perigo ou desastre que requer uma ação imediata. Poderíamos então nos perguntar: haveria necessidade de ação mais imediata do que estar diante dos perigos que levam à supressão de uma vida? Ou, em nosso caso, que tem levado à supressão de povos e populações inteiras? Assim, numa primeira visada, há um estado de emergência que nos conduz às seguintes perguntas: como resistir e reagir às forças e poderes que tem produzido em nossa sociedade um monopólio das formas de vida extirpando todas as demais? A emergência do estado de coisas no Brasil nos leva, então, a um posicionamento necessário: estar ao lado daqueles cujas vidas se tornam mais e mais impassíveis de luto. São vidas pelas quais a grande mídia não chora as perdas, pelas quais os chefes de Estado não se pronunciam a respeito, ignoradas por não serem percebidas como vidas mesmo – portanto, não necessitam ser sentidas ou lastimadas. No entanto, é no exercício da diferença que estas são também vidas como outras quaisquer.Vidas em sua plena potência, com modos singulares de organizar o espaço e o tempo, os costumes e hábitos, o mundo material e sensível. E estas vidas sabem não serem reconhecidas como tal por nós, o mundo racional-ocidental. Como escreveu o filósofo ameríndio Davi Kopenawa: “Os Brancos só nos tratam como ignorantes porque somos gente diferente deles. Mas seu pensamento é curto e obscuro; não consegue ir além e se elevar, porque eles querem ignorar a morte […] Os Brancos não sonham longe, eles dormem muito, mas só sonham consigo mesmos”.

Há também um outro aspecto relacionado à ideia de emergência que nos parece importante convocar. Etimologicamente, a palavra deriva do latim, emergere, e significa "trazer à luz", subir à superfície. Ato ou efeito de emergir. Estado daquilo que emerge.  Tradicionalmente, temos pensado no campo da educação e do cinema o modo como determinadas vozes parecem se sobrepor a outras, o que nos levaria à necessidade emergente de “dar a voz” aos que não são ouvidos em nosso mundo. Conferir-lhes o direito à palavra. Contudo, pensamos que não se confere a voz, ou mesmo o poder, a ninguém. Indígenas, homens de campo, crianças, mulheres, populações trans, LGBT, sujeitos quaisquer, o que lhes faltamnão são vozes, mas as condições de possibilidade mesmo para que essas vozes-vidas possam emergir, com sua singularidade, com sua força perturbadora.

Finalmente, é neste sentido que definimos como questão central da Temática Educação da 12ª CineOP as “Emergências Ameríndias” no mesmo duplo movimento: nos posicionarmos ao lado dessas populações que vem sendo exterminadas pelo Estado brasileiro, o neoliberalismo, o agronegócio e, a um só tempo, nos conectar com sua produção subjetiva, com seus modos de ver, ouvir e falar sobre o mundo. Com suas maneiras de aprender e ensinar. Assim, gostaríamos de nos aproximar de toda a cosmologia que cerca a produção recente de diversas etnias indígenas, buscando perceber como essa forma de convívio entre nossos pensamentos ocidentais e ameríndios podem nos recolocar em relação a um mundo atravessado por diversos sintomas. Uma necessária visada à nossa história, uma história ainda desconhecida. Pretendemos que esta edição da CineOP possa se tornar um espaço fecundo para a reflexão e produção em torno desta que é talvez umas das nossas questões mais emergentes - há mais de 500 anos. 

Adriana Fresquet – curadora
Isaac Pipano – curador assistente

Adriana Fresquest
Foto:  Leo Lara/Universo Produção